DSC06665

(re)visitando – Contos Nossos do Brasil (2008)

 Contos Nossos do Brasil
Cleide Riva Campelo

 

  1. NOTÍCIAS DE TUTU-MARAMBÁ

 

Era uma vez o Big Bang: do meio do Kháos, ainda meio aloprado, surge o vento, eco do tempo. Por muito tempo, mais nada.

Muito lentamente, assustadoramente, o universo começou a soprar: inspiração, respiração, piração, coração. O eco do tempo passou a bater como o vento e virou um sopro criador. De dentro do oceano, agora organizado em marés e ondas violentas, ela surgiu e tendo vindo na forma de dança, saiu do meio das águas turbulentas e se pôs a girar.

Do redemoinho dervíxico do vento, surgiu um velho. Velho, muito velho, que já nasceu velho e sábio, sabendo de tudo.  Este velho, muito velho, xamã macunaímico, protetor e escultor dos antepassados, da memória, do futuro, anunciou-se na forma de balangandãs-chocalhos, de sinos, de vento sibilando pelo giro da deusa e das águas crespadas. Estava nascendo o canto, o som do tempo.

O som foi virando um apito, o apito um pio, o pio chocou um pássaro. E os pássaros povoaram o futuro. O vento: o passado; os velhos: o presente; os pássaros: o futuro.  Com os pássaros, ficava resolvida a questão do espaço: as asas inventaram o vôo; o vôo inventou o sonho da noite e os delírios do dia; céu e terra começavam a criar fronteiras definidas. Os velhos foram virando homens fortes e construtores de seus labirintos. Dos labirintos nasceram novos sonhos de vôos: chegar às nuvens, atravessar as águas, tostar as asas no calor do sol. Novas quedas, novos desafios para o imaginário. Dos ovos dos pássaros, os homens fortes inventaram os pelourinhos, as correntes, as paredes, os túmulos, os cofres, as leis, a escrita fechando tudo na página-cadeado.

Dos ovos, também nasceram os olhos, com eles os tribunais, os enforcados, as paixões-sentimentos. Dos sentimentos, foram vindo, devagarzinho, as lutas, as disputas, o amor, o desamor.  Aí, quando tudo estava caminhando para uma meia-volta em direção ao Kháos, pelas mãos das Parcas, safadas sereias, os velhos sábios retornaram na forma de pássaros e na forma de fantasmas, e entraram para dentro de nossas janelas para nos lembrar da dança, vestígio do vôo; e do vôo, vestígio do canto; e do canto, vestígio do vento; e do vento, vestígio da deusa.

Desta dança reinventada, nasceram os índios das terras antigas em que foi o Brasil. E os índios, de tantas nações diferentes, dançaram e cantaram por muitos e muitos dias e noites, até que o homem forte recuperou a lembrança de sua força e relembrou os chocalhos e as tintas nas curvas do corpo.

De outras terras, também outros índios, de pele de jenipapo, também renasceram e relembraram suas danças, seus batuques, seus lamentos. E deram o sangue de sua gente à primeira forma do vento que havia chegado como dança, de dentro do mar revolto, lá no princípio de tudo. E a deusa deles virou o vermelho, encarnado, e girou, girou, girou. Ao girar, foi ajustando todas as contas, foi fiando o tempo que foi passando rápido e revolvendo os lentos processos da justiça. Os homens todos brincaram de roda e riram muito. E foram se esquecendo de tudo, fiando a memória. E brindaram.

E o Big Bang, para quem não existe o passar do tempo nem as agruras do homem, suspirou tranqüilo sua imensidão cósmica. E de seu suspiro vieram rolando, história abaixo, uma multidão de notícias de jornal: um livro de poemas, maçãs soprando desejos, sapatos marrons, andorinhas e jandaias, imagens de TV, pele de artistas, máscaras do público, espelhos de madrastas, bonecas despencando das janelas, padres voadores, Cronos e Zeus e Nelson Rodrigues recriados nos porões da Áustria e atrapalhando o sono do passado, sonhos e pesadelos em concursos de fantasia, velhos sábios outra vez disfarçados em sol e em luas, crepúsculos. E era uma vez o homem…

Fim é que é coisa que ninguém se perguntou. Porque se o bicho resolve suspirar de novo é que eu quero ver o corre-corre da moçada.

Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, quem quiser que conte quatro.

0 comments on “(re)visitando – Contos Nossos do Brasil (2008)Add yours →

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>