Reflexão n.2

Reflexões Sobre e Para Tutu-Marambá: Fragmento n.2

Cleide Riva Campelo

Quarta-feira de Cinzas. O tempo renasce por trás das folias carnavalescas. Tempo-fênix a nos inspirar novos vôos.

O Carnaval é um bom exemplo para o tema desta reflexão, o tempo-espaço, já que o Carnaval é uma festa dentro do calendário circular que ancora o tempoespaço de nossa cultura.

Acredita-se que as celebrações, os ritos, as festas começaram com o próprio nascimento da cultura: com a percepção da morte e o nascimento dos rituais fúnebres. Ao dar-se conta da inexorabilidade da morte, perante a separação de entes queridos, o homem ancestral inventa o rito do sepultamento, no sentido de fazer alguma coisa, quando mais nada parece possível. É a superação que a própria vida inventa perante o nada que traveste a morte.

E, depois, inúmeros rituais/festas foram sendo criados para alimentar a vida social de grupos de diversas culturas: antes e após as caçadas coletivas, na celebração do plantio e da colheita, na chegada das chuvas fertilizantes, na celebração de alianças entre grupos distintos, na preparação das lutas, nos ciclos individuais (de nascimento, crescimento, casamento, fertilidade, morte), ciclos de saúde e doença, ciclos da natureza. Enfim, o homem criou as festas, os rituais, as celebrações e hoje ele é redesenhado por essas mesmas festas. Criador e criatura espelham um a cara do outro, e não há como fugir desses reflexos.

Acho o Carnaval uma evolução darwiniana de ritos pagãos antigos, que recebeu, no Brasil, uma injeção de vida renovada, e que ainda guarda, em sua resistência, sementes dionisíacas, saturnais, lupercais, momísticas ( da deusa grega Mómos, filha de Nix, a noite; é conhecida como “Escárnio” ou “Sarcasmo”, perante quem homens e deuses sentem-se despidos por seu olhar rápido de zombaria. Sua expulsão do Olimpo empurrou-a para o convívio dos homens, onde vive até hoje).

O Carnaval vive de camadas e camadas de significados: são muitas as máscaras, as fantasias, as formas de celebração em cada canto do Brasil. Não podemos, portanto, falar de um Carnaval, mas de várias celebrações de Carnaval. Tempo de dançar, exibir-se, transborda-se; mas, também tempo de isolar-se, de fazer silêncio, de não fazer nada. Carnaval é a escolha do prazer momentâneo num tempo de festa coletiva.

O que nós artistas estamos, talvez, buscando em nossa prática é estender e ampliar este tempo de transgressão e inversão do Carnaval para os outros dias do ano.

Pensando, por exemplo, nas duas últimas apresentações do Tutu-Marambá: no dia 29 de Novembro de 2008, sábado, propusemos um diálogo entre nossos corpos contemporâneos e o espaçotempo histórico da antiga Fazenda Ipanema (hoje Floresta Nacional de Ipanema). Eram vozes do presente e do passado que conversavam num espaçotempo mítico, no trançar de um diálogo que reinventou o tempo e o espaço e os transformou em novos contornos. Sincronizamos música e movimentos dentro daquele prédio imenso, e era como se estivéssemos fertilizando um ovo gigante. Nossos movimentos em cima de todo aquele maquinário adormecido eram como uma dança sagrada que ambicionasse dar vida ao ferro; era uma brincadeira de deuses que assopravam, outra vez, seu hálito criativo sobre seus bonecos moldados a mão. Nós éramos os deuses, as máquinas velhas e obsoletas eram as criaturas esperando a vida. Será que depois de nossa passagem pela antiga Fazenda Ipanema as máquinas todas não se levantam a cada noite e dançam por entre os prédios e a floresta, agora talvez encantada?

E o que dizer das conversas sem fim que os Tupis e os Ainu fiam desde aquele domingo, 30 de Novembro de 2008, quando através do trançado de nossos tambores de Maracatu, mais os do Taiko, e da flauta mágica de nosso Pablo Fagundes, com o contraponto de nossos passos e com o calor de nossas tochas de fogo, demos início a um diálogo invisível, mas audível aos que fazem parte do encantamento desencadeado naquela noite? Ali o Tutu-Marambá foi sacerdotisa e bruxo, foi pajé e anjo, foi Exu e Hermes, tramando um encontro entre irmãos separados no nascimento, reunindo o que o vento cósmico dividiu. Tudo o que fizemos naquela noite foi a cocção de uma poção mágica, remédio para curar gente grande, que cicatrizou feridas abertas por entre os séculos da civilização humana.

Assim, nessas duas noites preparamos o ambiente para a apresentação da sexta-feira, dia 28 de Novembro de 2009, quando fizemos o grande ritual xamanístico “Notícias do Tempo Antes de Tutu-Marambá”. O ritual aconteceu antes, a preparação veio depois, tendo sido essa a mágica que desarmou tudo o que de negativo poderia acontecer: e a noite desceu perfeita, ao som do fue de Terumi Sakata, da fala Ainu que nos saudou na entrada, do suikinkutsu, da percussão de Manu Faria e, principalmente, da gaita de nosso convidado especial Pablo Fagundes, que transformou som em pássaros, cores e sabores. Quando dançamos o Bon Odori e a avó de Terumi transbordou para a cena toda a sua emoção de imigrante, fomos ungidos por uma bênção muito especial, e os atores do Ozu pularam da projeção para a nossa cena e ficamos todos misturados, consagrados, por entre as pinturas dos Tupis e dos Ainu, na perfeita iluminação que partia do corpo de cada um de nós e jorrava para o cômodo feito de papel de seda e madeira, com desenhos japoneses. Tudo funcionou na medida exata: recriamos o mundo e revertemos o tempo. Não será essa, talvez, uma das funções da Arte?

Tutu-Marambá!

Sorocaba, 25 de fevereiro de 2009

0 comments on “Reflexão n.2Add yours →

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>