reflexão n.1

Reflexões Sobre e Para Tutu-Marambá: Fragmento n.1

Cleide Riva Campelo

Refletir: etimologicamente, significa “fazer retroceder, desviando da direção inicial”, “espelhar”, “revelar”, “pensar”. Na expressão latina original, refletir significa “voltar para trás”, “virar”, “recurvar”, “vergar”, “dobrar”, “apaziguar”, “abrandar”, “acalmar”, “mudar”, “ceder”.

Estou satisfeita: as pistas do dicionário servem como um bom condutor. Porque eu não gostaria de voltar no tempo para ver o que já foi visto. Mas, encanta-me a idéia de voltar revirando e inventando uma nova dobra. Abrandar o fogo com os novos ares de novas mudanças: o abrandamento vira um novo atiçar o fogo, brasas novas, calor novo. Já gosto deste presente desvio da direção inicial.

Porque para mim, interessa o desvio, a dobra, o espelho atrás do espelho. Busco o recurvar, a esquina (encruzilhada!), o vento do furacão e a brandura da brisa que nos sopra novo ânimo para a luta.

Admiro aqueles artistas que refazem o caminho trilhado por outros e os refazem sempre igual. São os guardiões da memória. São a memória da cultura humana. Artesões necessários, refazem em seu fazer tudo o que já foi feito e nos lembram sempre sobre o passado.

Não é neste território que me situo. Estudo muito sobre o que já foi feito e o que já foi pensado sobre a Terra. Mas, como artista, quero estar no território do risco, do que ainda não foi dobrado, pisando a neve que ainda não foi pisada (para lembrar um velho e querido amigo que me espreita de longe, Dietmar Kamper). Por isso preciso me debruçar sobre a s fontes primárias da cultura: sonhos, arquétipos, mitos, culturas tradicionais, gestos corporais, estados alterados da consciência como o transe, e tudo o que ainda não está à disposição dentro dos pacotes de comida congelada dos supermercados. Quero ainda ter o direito de arriscar a vida colhendo na floresta um cogumelo que pode ser comida e pode ser veneno. Cogumelo sem bula, sem comprovação por escrito do FDA dos Estados Unidos da América.

Então, é por este caminho, que é antes um não-caminho, uma trilha ainda não trilhada, que eu pretendo me embrenhar junto com o Tutu-Marambá. Reformatando o barro de nossa origem, amassando de novo os velhos sonhos para que possamos assar outras nuvens, outras pedras, outras pegadas deste pó que vem impregnado em nossos pés.

Não é virar o rosto para o passado ou para os outros artistas do presente. É justamente encetando um diálogo que damos cada passo: mas, numa conversa em que a gente ainda não saiba o que vá dizer, em que a gente mesma se surpreenda.

Por isso os índios, os Ainu, as nações da África, as deusas da Índia de nosso primeiro guarda-sol. Mas, sobretudo, exatamente por isso, a onça. Onde estará o nosso futuro escondido nas dobras das matas ancestrais? Onde nosso rosto vem traçado no mapa das espécies todas, espalhadas apela Terra? Onde estarão nossos sonhos semeados pela curiosidade primata que nos trouxe até hoje?

Somos feitos de perguntas. Perguntas grávidas, criativas, instigantes. Não perguntas formais só para ocupar espaço, de quem pergunta já sabendo qual é a melhor resposta. Vamos mergulhar no desconhecido da floresta para nos deslumbrar e para nos apavorar, para nos salvar e para nos perder. Sem garantias, sem ter um porto seguro para onde a gente se destine, sem mapas.

Mas, claro, levando toda nossa memória, nossa bagagem corporal e cultural, toda a seiva que a vida já tatuou em nós. E celebrando essa memória, vamos dobrá-la e desdobrá-la, vamos lembrá-la e esquecê-la, vamos criar algum ponto de memória futura para o que ainda não foi pensado. Vamos, exatamente, voltar para desviar nossos rumos, criando surpresas para nossos pés. Vamos aprender alguma dança que ainda vai ser inventada.

É deste labirinto, ciclo de vida, que quero nutrir nosso trabalho. Se tivermos a duração do lampejo de uma fagulha breve, direi que me dará prazer e orgulho reconhecer uma faísca do BigBang em nosso corpos. Este som nunca ouvido, se ele for ampliado pela nossa ação artística, fará com que sejamos merecedores de estarmos ocupando este lugar a que nos propomos. Esta é a nossa função enquanto criadores e performers. Foi para isso exatamente que chegamos até aqui juntos.

Tutu-Marambá!

Sorocaba, 18 de fevereiro de 2009

0 comments on “reflexão n.1Add yours →

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>