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Cunhã Antã, Celebrando a Vida: Viver É Lutar!

Nós, o grupo Tutu-Marambá, Pesquisas das Artes do Corpo, recebemos o convite amoroso para participar do ensaio aberto do Coletivo Cê, em seu novo projeto: Cunhã Antã. E lá estivemos, ontem, 5 de julho, sábado de noite clara, de lua crescente com Marte ao lado. Ficamos olhando o céu, enquanto aguardávamos a hora da turma II entrar (um grupo já estava lá dentro, percorrendo o camarim e participando da preparação dos corpos e das cenas).
Entramos e eis que a roda fica pronta. E participamos, todos, cada um com seu pedaço de sonho e com suas cicatrizes, na construção desse desvario, dessa desrazão, que é a construção de uma realidade dentro da outra: sempre tão possível, sempre ali, à mão.
Desrazão, como uma nova lógica: não a dos gregos, não a de Kant: mas, a nossa razão, povo novo que somos, só 500 anos de mistura de ancestralidades outras, mas já com direito a uma lógica própria, que se sustenta em pé, sem precisarmos sempre nos referir às velhas teorias europeias. A árvore floresce por si só e mostra seus galhos e folhas e flores – não é preciso sempre se referir à Botânica quando se olha um ipê rosa ou branco ou amarelo ou roxo. O momento presente se impõe, apesar do passado. É preciso abrir os olhos para o presente, sempre tão fugidio. Se o pequeno pássaro não voa na hora certa, ele mumifica dentro do ninho. O momento certo para levantar vôo passa muito rápido.
E foi com nossos olhos, ouvidos, tato, olfato, paladar, propriocepção, poros, lembranças guardadas, e sinestesias todas que fomos degustando, deglutindo um trabalho cuidadoso e saboroso do Coletivo Cê, ofertado aos ali presentes como um banquete legítimo: festa do cauim, festa na floresta, festa da gente. Festa do corpo que sabe se reinventar além dos preconceitos, além dos grilhões, além das marcas dos chicotes dos feitores, das feridas impostas pelos invasores, além de nossa agressividade animal, strito senso, que se revela em nossas cotidianas e aparentemente desimportantes pegadas por ciúmes, por desafeto, por sentimentos de posse, por competição, agressões do dia a dia que dispensamos quase sem querer a nós mesmos e aos que estão a nossa volta. O pior dominador é o que habita escondido dentro da gente.
Aquele pedaço ali vivido, compartilhado no pulsar de Daiana de Moura e Mariana Rossi, e mais no de todos do Coletivo Cê e de todos nós ali tão presentes, transformou-se, a partir do biscoito fino de uma dramaturgia delicada (como uma renda de bilro), entre um lusco-fusco de luzes que eram acesas e apagadas por entre cenas de um denso teor vital, em um final ritualístico de uma roda de índios ou afroeurogaiatupiniquins, dizendo o nome de quem merecia ser louvado.
Em vez de aplausos, abraços de corpo inteiro. Em vez de crítica, continuamos a tecer a noite, tomando a sopa antropofágica de nossa história e compondo mais estrelas no céu do Bairro da Chave, em Votorantim. Que eu, ontem, não queria estar em Estocolmo, não queria estar em Paris, não queria estar em Nova York. Queria estar na Chave, onde eu estava, com tantos queridos em volta, celebrando e lembrando que viver é lutar. E feliz, por também saber que sem compartilhar a vida, a luta é inglória, parodiando o Mantovani, que, Macunaíma safado, sorria do meio da mata, ali ao lado da gente.

Cleide Riva Campelo
Sorocaba, 6 de julho de 2014.

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