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Jauára Ichê. Oficina n.7: Inventando o Passado: Recriações da Memória Corporal

Jauára Ichê. Nós e Entremeios da Cultura Antropofágica
Oficina Grande Otelo/Cleide Riva Campelo, 12/3/2014
Oficina n.7: Inventando o Passado: Recriações da Memória Corporal

Começamos na roda, lembrando de Ingmar Bergman e os ecos de sua A Fonte da Donzela. Por entre eles, deixamos que os vikings entrassem mostrando os tesouros que saquearam pelos tempos imemoriais. Eles, por sua vez, nos deixaram o mar.
O mar trouxe Peer Gynt, bem no momento em que, rico, está no barco voltando para casa, só ele e a tripulação. É o herói que, já velho, cabeça branca, cumpre o ritual do eterno retorno à terra natal. O mar está bravio. Eis que surge, do nada, ao seu lado, um estranho passageiro. Começa um dos mais intrigantes pedaços deste Ibsen:
– Boa noite.
– Boa noite. O que… quem é você?
– Seu companheiro de viagem, às suas ordens.
– É mesmo? Pensei que eu era o único passageiro.
– Impressão errada, a ser corrigida agora.
– Mas, é muito esquisito que eu não tenha visto você, a não ser agora.
– Eu não saio durante o dia.
– Talvez você não esteja se sentindo bem? Você está branco como papel!
– Estou muito bem, obrigado.
– Que tempestade!
– Sim, que bênção, hein?
– Bênção?!
– As ondas do tamanho de uma montanha. A gente chega a salivar só de pensar nos naufrágios que teremos esta noite. Nos cadáveres que serão jogados na praia.
– Pelo amor de Deus!
– Você já viu um homem que foi estrangulado, ou enforcado, ou afogado?
– O que diabos você quer dizer com isso?
– Há um sorriso em seus rostos; mas, o sorriso é sinistro, e na maioria dos casos eles morderam a língua.
– Suma daqui!
– Só uma pergunta. Vamos supor, por exemplo, que o navio encalhe hoje à noite e afunde.
– Então, você acha que há risco?
– Não sei o que responder na verdade. Imagine que eu me salve e você se afogue.
– Ai, tenha dó!
– Bem, é apenas uma possibilidade. Quando se está com um pé na cova, tende-se a ter ideias caridosas.
– Ah, entendi; é dinheiro que você quer.
– Não, mas, se tiver a bondade de me presentear com seu cadáver…
– Isso já está indo longe demais!
– Somente seu cadáver. É por razões científicas…
– Dá o fora.
– Mas, meu caro amigo, pense bem. Tudo seria para seu próprio benefício. Eu abriria você e lhe deixaria sem nada. Na verdade, o que estou procurando é o local dos sonhos; mas, além disso, eu o passaria por um exame completo…
– Saia daqui!
– Mas, senhor, um mero cadáver afogado!
– Cuspindo blasfêmias! Você está chamando a tempestade! Que loucura! Com todo este vento, chuva e um mar pesado e todos os sinais de que alguma fatalidade pode acontecer – e aqui vem você pedindo por algo pior!
– Percebo que o senhor não deseja, no momento, continuar este assunto. Mas, o tempo tão frequentemente muda as coisas. Nos encontraremos, quando o senhor estiver afundando, se não antes disso; quem sabe não o encontre com o humor melhor.
– Como são uns chatos estes cientistas! E os filósofos, também… Ei, contramestre, uma palavrinha aqui. Quem é aquele passageiro lunático?
– Não sabia que havia ninguém aqui, além do senhor.
– Ninguém? Caramba, isto está ficando cada vez pior. Quem entrou naquela cabine neste momento?
– O cão do barco, senhor!
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Deixamos Peer Gynt lutando com as ondas em seu caminho de retorno ao lar e começamos nossa travessia. Em posição de lótus, respiramos as cores laranja e prata e entramos no túnel do tempoespaço recém-criado. Os olhos fechados, caminhamos como náufragos pelo mar do inconsciente. Travessias na areia e travessias surfando no mar bravio, com túnicas que poderiam nos servir de boias, se necessário. Alternamos rotas de paz e tormentas, até podermos vagar de volta ao colo da Terra. Soltamos nossos sonhos, como conchas que gritam seus segredos ao vento. Uivamos, e com nossos gritos, acalmamos as marés.
Viramos harmônicas algas que dançavam sobre as águas salgadas.
Depois, escancaramos nossos sonhos cravados no corpo e os oferecemos, num reverso de jogo de passa-anel, para que fossem transformados em aves e voassem. E nossos sonhos voaram; desocuparam espaço em nossos corpos e, já agora, eis que novos sonhos estão sendo moldados para que nos habitem: fábrica de sonhos que somos, afinal!
Foi um mergulho e tanto. E sobrevivemos…Trabalho xamânico, nunca domesticado pela razão ou pelas palavras.
Aí vieram as maçãs, as conversas, e os abraços.

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