Por Um Corpo Expandido

Cleide Riva Campelo

Já nos acostumamos às muitas vozes que nos habitam: vozes dos antepassados – seres que nem conhecemos e atuam em nós, sem nosso consentimento, em gestos repetidos, em tiques e toques, em paixões súbitas, em receios; vozes tatuadas pela química e biologia que nos dão alguns contornos interessantes como a cóclea, as brânquias fetais, os sonhos e o umbigo, por exemplo; vozes da cultura – mitos, danças, sons e cantos sempre recriados em nossos corpos; vozes da espécie, tremores e arrepios vindos do sexo e do córtex, sempre novos, sempre os mesmos.
Essas vozes – vibrações do tempoespaço imemorial do tempo da vida sobre a Terra – parecem que já estão, razoavelmente, acomodadas dentro da gente. O corpo é o mesmo corpo jurássico do princípio de todo o corpo. Mas, a dança do corpo já gerencia bem toda a logística dos movimentos do tempo e do espaço.
Isso é a história do corpo, desde seu princípio até a metade do século XX. Corpo do homo sapiens circunscrito a um espaço localizável, com raras chances de superação geográfica realizadas pelos ousados navegadores de até então.
Mas, eis que a máquinas tomam gosto pela vida. Os aviões, os carros, os trens vão nos transportando, cada vez mais velozes, a todos os cantos do planeta. E com os foguetes chegam os devaneios da superação dos limites do que poderia ser o humano. Já vagamos pelo espaço levando mensagens cifradas e imagens do corpo humano representadas em desenhos para que nos leiam algum dia, quando já não formos mais. Já ultrapassamos os limites do sonhado.
Agora, carregamos as máquinas – corpos criados por nós mesmos, nossas extensões, portanto – dentro de nossos corpos. E hoje, quando o limite entre criador e criatura já aparece borrado, queremos nos assustar, como a criança que se vê no espelho pela primeira vez e estranha seu rosto.
Somos só pés no chão, ou somos também nossos sapatos, nossas bicicletas, nossos carros, nossos ônibus, nossos trens, que nos carregam cada vez mais depressa a todos os nossos destinos?
Nossos contornos e nossos recheios estão contaminados de tudo. Sem mais poder acreditar nos rótulos iluministas que pretendiam classificar cada pedaço da vida, voltamos à sopa cósmica do deus Khaós, origem de tudo o que é a vida. E nesta retorta alquímica, o orvalho do dia novo vai, outra vez, molhar a matéria prima – tudo junto, tudo misturado – para que este novo homem que está se plasmando possa, não do barro divino, mas do barro da Terra, surgir.
Inventar e preservar: este é o ritmo do tambor que revisita caminhos míticos e inventa os mitos do futuro.

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