A Performance e a Bomba Atômica

Cleide Riva Campelo/ Tutu-Marambá, Pesquisas das Artes do Corpo
Sorocaba, 7 de agosto de 2013.

Quando aquele fatídico segundo avião penetrou o corpo do World Trade Center, no que passou a ser conhecido como o ataque terrorista de 11 de setembro, o compositor alemão Karlheinz Stockhausen (1928 – 2007), grande criador e inovador da composição musical, disse que aquilo havia sido a maior obra de arte jamais realizada: o arrebatamento que foi alcançado ali em alguns segundos, jamais poderia ser realizado por nenhum artista. Esta frase, retirada do contexto original, foi alvo de muitas críticas e controvérsia; Stockhausen então voltou ao tema: e ele reafirmou que o ato havia sido um exemplo espetacular do poder da criação do destrutivo, de Lúcifer – aquele que desconhece o amor.
Isso, na época, me fez pensar em Hiroshima e Nagasaki, ainda antes dos meus tutus por perto. Sim, ainda mais para nós, da Arte da Performance, essas ações no tempo real não podem nos passar desapercebidas. Elas falam com a gente; cutucam muito de perto.
Em 2008, o grupo formatou-se por decisão coletiva, por desejo de realização de um trabalho criativo, pela vontade de cada um em cooperar na abertura de novas trilhas para nossos pés. Isso foi em Julho. Agosto raiou num piscar de olhos e pensamos: estudar performance e ignorar a ação da bomba atômica sobre duas cidades em pleno século 20? Impossível. Nossos estudos sobre Hiroshima e Nagasaki e sobre paz e guerra, violência, agressividade, as cidades, foram todos sendo desenhados por aí.
Hoje, às 19:30 horas, na praça Kasato Maru, percorreremos o caminho da invenção criativa amorosa, mais uma vez. Pela penúltima vez; já que o fim dos ciclos deve sempre ser anunciado, para que novas ideias possam brotar do desconhecido, também. Precisamos dar chances a outros, que queiram levar essa ideia adiante.
Assim, em 2014, faremos o sétimo e nosso último tributo-performance para Hiroshima e Nagasaki, cientes de que temos caminhado muito respeitosamente por essas trilhas e muito aprendemos. Em 2014, faremos as luzes das estrelas brilharem mais forte do que as luzes da explosão atômica: e mais uma vez, as pétalas das rosas sedarão os corpos-memória, que ainda precisem que se assopre sobre eles.
O grupo foi se construindo por esses anos: no anarquismo esclarecido, no respeito às diferenças, no respeito ao tempo de cada um. E críticos e sabedores da importância local de estarmos pontuando um eco sobre a memória da nossa civilização, sobre uma dor que precisamos aprender a conviver e a, criativamente, nos envergonhar, a cada dia de nossas vidas.
Nossas imagens rolarão para sempre por entre as nuvens, através de tudo o que foi e ainda será capturado pelos artistas da imagem: Nilze de Campos, Beto Rocha e Tiago Macambira, a quem somos afetuosamente ligados. Eles são dádivas dos deuses em nosso trabalho.
Por quem os sinos tocam? Por você. Por mim. Pela vida, sempre insistindo nas surpresas que nos prepara. Os sinos, quando tocam, também são momentos de suspensão insuperável. Vamos com os sinos; com a criação que preserva a vida. Que planta sementes. Estão ouvindo? Começam a tocar…Stockhausen e Koellreutter dão risadas.

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